Quem diabos sou eu?

por Nick Fronzai

Eu me chamo Nick Fronzai — e sim, é um pseudônimo. O nome que eu escolhi para me ouvir melhor. Uma máscara que não esconde, mas revela. Aos 35 anos, percebo que venho me escrevendo por ele há quase uma década: um espaço onde posso falar do que sinto sem precisar pedir licença ao meu eu civil.

E, para ser justo, começo com uma advertência honesta:
não sou psicólogo, nem estudante da área.
O que faço — por curiosidade disciplinada e, talvez, instinto de sobrevivência emocional — é me apoiar na literatura de comportamento humano, principalmente nas lentes dos esquemas e dos arquétipos. São ferramentas que uso para entender o próprio desejo, não para parecer técnico.

E é nesse cruzamento entre vida, teoria e teimosia que chego ao tema que move boa parte das minhas reflexões: a heterocracia.


A tal da heterocracia — explicada de forma humana

Falo de heterocracia como a estrutura simbólica que coloca a masculinidade do homem branco, cis e heterossexual no topo do imaginário ocidental.
Não é uma organização com CNPJ. É atmosfera. Clima cultural. A água em que a gente nada.

Ela define quem é o centro, quem orbita, quem deseja, quem é desejado. E, como quase tudo que importa, ela atua de forma silenciosa, moldando comportamentos sem pedir autorização.

Em termos bem diretos:
a heterocracia infiltra-se na subjetividade — inclusive no desejo.
E quando você começa a prestar atenção, percebe que faz parte do seu vocabulário emocional desde muito antes de saber pronunciar seu próprio nome.


O dia em que percebi que eu não estava “me aceitando”: eu estava fingindo

Eu relutei por muito tempo.
Relutei mesmo.
E por anos repeti para mim uma aceitação que não existia.

Quando finalmente parei de brigar com a realidade interna, consegui olhar para a coisa com mais clareza:
essa é a minha natureza.
Não um “talvez”, não um “em parte”. É.

E essa natureza inclui o fato de que meu desejo, minhas fantasias e até minhas dinâmicas de validação são moldadas — em parte — por essa tal heterocracia. Não por submissão imposta, mas por desejo consciente.
E foi libertador admitir isso.


Um exemplo pessoal (porque teoria sem corpo é só teoria)

Por muito tempo, expliquei minha atração por certos homens heterossexuais como “preferência estética”.
Mas, quando comecei a explorar meus próprios esquemas — especialmente os ligados a idealização, submissão e validação — percebi que havia arquitetura ali. Não era aleatório. Não era superficial. Era simbólico.

Eu desejava não só o corpo, mas o lugar social daquele corpo.
A despreocupação.
O privilégio inconsciente.
O tipo de masculidade que nunca precisou se justificar.

E aceitar isso sem culpa exigiu um certo tipo de coragem íntima.


Um exemplo conceitual (para o leitor que gosta de imagens)

Se a subjetividade fosse um terreno,
a heterocracia seria a gravidade.

Você não vê, mas ela puxa tudo para uma direção específica.
Cada um aprende a caminhar meio inclinado — alguns mais, outros menos.
O desejo cresce nesse solo.
E ele cresce torto.
Mas cresce.

E há beleza nessa inclinação quando você para de tentar endireitar o que é, por essência, curvado.


Por que eu escrevo

Escrevo porque, quando transformo esse caos em linguagem, ele perde a cara de ameaça e ganha a cara de reflexão.
Escrevo porque o incômodo vira mapa.
E porque é divertido, às vezes, observar minhas próprias contradições como quem assiste a uma série cult que ninguém mais entende.

E, sinceramente, escrever me ajuda a rir de mim mesmo — o que, no final das contas, é uma das habilidades mais úteis da vida adulta.


E sobre o futuro

O que eu tenho é gosto de continuar cavando.
Porque a heterocracia abre perguntas deliciosas:

Por que desejamos quem desejamos?

O que encenamos quando nos apaixonamos?

Quantos dos nossos “tipos” são realmente nossos?

E eu adoro esse terreno movediço entre introspecção e ironia.

Então termino assim, com sinceridade:

ainda tenho uma tonelada de reflexões sobre heterocracia para fazer — e mal posso esperar para destrinchar isso tudo mais um pouco.