O que é heterocracia?

por Nick Fronzai

Então, aqui vamos nós mais uma vez.
Eu precisei pensar bastante sobre como trazer o texto desta edição — e, no fundo, o tema já estava ali, piscando pra mim há semanas: heterocracia. Não porque seja um assunto simples, mas porque fica difícil seguir adiante, nesse território onde desejo e estrutura se misturam, sem encarar um pouco do conceito que sustenta tudo isso.

Eu não lembro exatamente quando o termo começou a circular, mas lembro de ter sido um dos primeiros a adotá-lo depois de vê-lo surgir para falar sobre o privilégio do homem branco heterossexual. Nada a ver com fetiche, ainda — era pura análise social. Um esqueleto antigo, pré-existente.
Mais tarde é que percebi: o fetiche só encena o que a realidade já oferece.

Viver nesses meios fetichistas me deu uma lente nova. Ali, observando os desejos dos outros (e os meus), comecei a entender que existe uma estrutura recorrente, quase um molde. A heterocracia estava presente não porque alguém inventou — mas porque ela já operava, silenciosa, na cultura que formou todos nós. Cada um vive suas nuances, claro, mas o esqueleto é sempre o mesmo.

E antes que alguém torça o nariz: heterocracia não é, nem deve ser, lida como um termo simplesmente fetichista.
Ela descreve a hierarquia social invisível que organiza a nossa sociedade — aquela pirâmide cuidadosamente negada e, ainda assim, sempre funcional. Direitos iguais no papel, posições desiguais no cotidiano.

A versão fetichista da heterocracia só faz uma coisa: ela não finge.
E isso — por mais contraditório que pareça — é o seu diferencial.

Não se trata de apoiar a hierarquia, mas de reconhecê-la. E, em alguns casos, optar por entrar nela conscientemente. É a escolha de parar de lutar contra um desejo dizendo “isso não deveria me excitar”. É admitir que algumas rendições nos devolvem paz, alívio, dignidade até — eu sei que soa quase como papo de guru espiritual (prometo que não vou mandar você respirar profundamente… por enquanto 😌).

Mas rendição de quê, exatamente?

  • De me provar o contrário daquilo que esperam que eu seja.
  • De manter o controle absoluto — porque, aparentemente, todo mundo deveria querer isso.
  • De batalhar contra a tensão eterna entre desejo e razão.

E ainda assim… eu não tinha respondido o que me propus a explicar.

Afinal, o que é heterocracia?

Heterocracia é a estrutura social que define quem vale quanto em uma sociedade.
É a pirâmide invisível, mas absolutamente presente, onde a masculinidade heterossexual — sobretudo a branca — ocupa o topo como “padrão natural”.

Nada disso é novo; a gente só colocou nome.

E por que ela aparece tanto no universo do fetiche?

Eu não pretendo trazer todas as respostas — até porque ninguém as tem.
Mas existe algo claro: a heterocracia é apenas um dos sistemas que atravessam a nossa subjetividade, moldando afetos, fantasias, papéis. Ela não é a única, mas está longe de ser pequena.

E acontece que, no terreno do tesão, boa parte dos nossos filtros e defesas se desligam.
No sexo, o controle perde prioridade.
E quando isso acontece… tchan: os desejos mais profundos emergem. Os que estavam lá desde antes da gente poder escolher.

Mas então, se tem rendição, submissão e hierarquia… por que não é BDSM?

Bom, primeiro porque o BDSM costuma operar em um campo mais lúdico.
Ele cria um cenário ficcional — negociado, encenado — para experimentar dominação e entrega.

A heterocracia fetichista é outra lógica:
ela não simula uma hierarquia, ela opera na que já existe.

Claro, pode haver encenação. Mas a força está em algo mais sutil:

  • a gorjeta a mais para o garçom hétero que sempre te atende;
  • o amigo hétero que, mesmo sem perceber, sempre tira vantagem do amigo gay;
  • o bullying desejado — não o traumático, mas o simbólico — de ser visto como menor por heteros;
  • o magnetismo do inacessível;
  • o desejo que nasce na fricção entre mundos desiguais.

É um jogo que acontece na beira da realidade, quase na calçada da vida cotidiana.
A heterocracia fetichista não inventa uma estrutura; ela se apoia na que já existe.
Ela explora aquilo que o mundo oferece — inclusive a indisponibilidade dos homens heterossexuais — para produzir sentido, tensão, prazer.

Não é fantasia pura.
É a vida com contraste aumentado.

Pra fechar (por hoje)

Eu sei que não falei tudo o que gostaria — e talvez esse seja o charme do tema. Heterocracia não é um conceito fechado; é mais um mapa do território onde vivemos sem perceber. Um mapa que explica por que nos atraímos por certos corpos, certas posturas, certos silêncios, certos “não”.

A gente continua.
Ainda tem muito o que destrinchar — e, honestamente, eu quero fazer isso devagar.
Com cuidado, com ironia, com verdade.

Porque ninguém vive fora da heterocracia.
Alguns só decidem olhar para ela de perto.